sábado, 26 de março de 2011

O pardal e a borboleta

Quando cheguei do trabalho, na hora do almoço, reparei num acontecimento que me levou a uma viagem deliciosa por lembranças inusitadas. Estava fechando o portão quando reparei, no braço da cadeira de balanço do terraço, um pardal. Ele procurava captar um melhor lugar para pousar, e eu, o observando, achava aquilo bem curioso. Quando decidiu voar para o outro lado, atravessando o muro de minha casa, quase atropelou uma borboleta amarela que brincava entre as flores vermelhas daquele pequeno jardim na varanda.
Segui o pássaro com meus olhos, e depois a borboleta com meus pensamentos. Eles me levaram há alguns anos de meu passado, naquele mesmo lugar. De repente vi tudo tão maior, tão mais bonito, tão mais colorido e mágico. Lembrei de todas as brincadeiras, as artimanhas infantis e as histórias que inventávamos numa ingênua e doce juventude. Fechei os olhos e quando os abri novamente, tudo estava normal de novo. Normal no modo em que estava observando antes do devaneio. Era tudo tão pequeno. Um espaço apertado de dois por seis metros, com algumas plantas floridas ao redor do muro, sendo este mais baixo que eu. Tão simples, tão normal. Tão imperceptível nessa vida agitada que em que sou controlado pelo tempo. Tão diferente daquela época em que eu o controlava.
Nesse momento percebi algo curioso. A maturidade me fez enxergar o mundo de outra forma, mas ao mesmo tempo em que minha visão se expandiu para alguns pensamentos e críticas, se limitou infinitamente para outras percepções, que talvez fossem as mais importantes. Não conseguia mais enxergar nada do que outrora vira ou vivera em minha imaginação infantil. O mundo era tão amplo, tão grande e imenso. Mais que isso. Ele era possível. Possível em tudo que eu quisesse. Só bastava um pensamento, um sonho, e a doce ilusão tomava conta da minha realidade desmedida e sem fronteiras.
Será que a idade me tirou aquilo que era mais importante e me fazia tão feliz? Será que as barreiras impostas hoje pela razão poderão um dia me fazer tão realizado quanto as azas da liberdade um dia me fizeram? Será que conseguirei alçar vôo mesmo com meus pés fincados nesse chão frio e duro. A gravidade que a realidade impõe à minha mente poderá um dia ser desafiada pelos meus ínfimos desejos de liberdade?
Sinceramente não sei da resposta para nenhuma dessas perguntas. Apenas sei o que sei, o que vejo, o que escuto e o que sinto. Talvez possam agora existir novas formas de voo. Escrever pode ser uma delas. Fazer com que as pessoas possam voar comigo e até quem sabe sonharmos juntos. Talvez jamais voltemos aos tempos do impossível, mas a sua tradução em palavras pode nos levar tão longe quanto um dia pudemos chegar. Assim aquela felicidade encontra novamente a possibilidade de habitar em nosso coração e quem sabe possamos ver o mundo de uma forma diferente, com mais amor.
Talvez isso seja algo a se pensar. Talvez o que vem de dentro pra fora possa ser mais importante do que o vem de fora pra dentro, por que o que vem de dentro é a essência, e um dia ouvi falar que a essência do homem é o amor. E não foi ninguém palpável que me disse essas palavras. Acho que as escutei em sonho. Talvez fosse eu mesmo.
Como agradeço àquele pardal, que me levou àquela borboleta, que me levou àquela infância, que me levou a entender que a felicidade está num lugar em que tantas vezes nos passa por despercebido ou talvez nem procuramos parar pra pensar nele. E pensar, nesse caso, não tem caráter racional, mas emocional. Pensar com o coração. E é neste lugar que habitam todos os sonhos e prazeres tão singelos, mas que nos fazem tão felizes, como era aquele pardal, como era aquela borboleta.


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By: Pedro Felipe

1 comentários:

Nilbe Vasconcellos disse...

Essa narrativa sem dúvida é a melhor!!!

Sabes que me tornei sua fã por causa dela né?!

Continue escrevendo que continuarei "prestigiando"(fuxicando mesmo kkk)

Tchau - Gostei mesmo :D

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